terça-feira, 23 de maio de 2017

Curso "A Mulher e os Ciclos: da Lua, da Vida"

“El ciclo menstrual femenino es un poderoso proceso creativo cuyos efectos no se reducen al plano meramente fisiológico, sino que también se hacen sentir intensamente a nivel psicológico y espiritual” Miranda Gray



A vida acontece em ciclos. Na história, na moda, nas estações do ano... tudo na natureza parece ser cíclico. Assim também acontece com a mulher, que a cada ciclo menstrual tem a possibilidade de viver diferentes energias e potenciais em si mesma.

Acontece que fomos perdendo o conhecimento ancestral que nos permitia desfrutar a cada ciclo a plenitude da energia criativa, emocional, espiritual e física que está a nossa disposição.

Nesse curso vivencial vamos conhecer de perto a energia que predomina em cada parte do nosso ciclo mensal e aprender a trabalhar com ela para nosso maior equilíbrio, harmonia e bem-estar.

Vamos também aprender sobre os 4 ciclos da vida da mulher que podem ser vividos na plenitude; diferente da forma como temos vivido na sociedade contemporânea, onde só o ciclo produtivo importa.

Ser mulher pode ser uma experiência completamente diferente da que temos sentido até aqui!! Curso exclusivo para mulheres, desde a primeira menstruação e não importa a idade ou ciclo da vida, de verdade! ♥


Neste sábado dia 27/05 começamos esse curso em 2 sábados de manhã, no Espaço Satya em Ribeirão Preto. Para fazer sua inscrição mande email para contatoyoga@espacosatya.com.br ou acesse o link

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Dança Circular ≈ Meditação em Movimento ≈ Individuação

As Danças Circulares são danças dos povos, dançadas em diferentes culturas e momentos da humanidade, desde sempre. É uma meditação em movimento. Enquanto você se deixa levar pela roda e vai acertando os passos, sua mente fica tão concentrada naquele processo, naquele passo, naquele ritmo, que vai entrando em um vazio meditativo delicioso. Eu adoro!

O círculo é um dos símbolos mais importantes e poderosos e uma das grandes imagens arquetípicas da humanidade. São infinitas as imagens circulares encontradas no mundo. Círculo, forma universal que representa o todo unificado, sem começo, meio ou fim. Sem hierarquia. 

Enquanto dançamos em Círculo, vamos desenhando uma Mandala. Em suas obras, Jung refere-se às Mandalas, palavra sânscrita que significa círculo, como símbolo dos “si mesmo”, a totalidade da personalidade - o SELF. Para ele, a meta do desenvolvimento psíquico é a individuação, ser o “si mesmo” que se é, e a aproximação em direção a ela não é linear, mas circular. 

Dançar é movimento. Do corpo, da energia, da vida. O movimento, o ritmo e a participação de cada um faz como que o círculo seja vivenciado como símbolo vivo e pulsante. Se energia psíquica para Jung é igual energia vital, a partir do momento que eu trabalho o movimento nas danças, ativando a minha energia vital, estou também ativando a minha energia psíquica. Fazendo fluir conteúdos entre as diferentes camadas da psique, ou seja, tornando conteúdos inconscientes, conscientes – individuando.

"Dançar é celebrar, é a demonstração dos sentimentos quando as palavras são insuficientes. O homem primitivo dançava em todas as ocasiões, ao amanhecer, na morte, no nascimento, para celebrar um encontro, o casamento, a boa caça, o plantio e a colheita. A primeira representação de uma dança em grupo encontrada na história da humanidade, data de 8.000 anos a.C., é a Roda de Addaura, localizada em Palermo na Itália."

A dança circular enquanto movimento teve início em 1976, através do bailarino e coreógrafo polonês Bernhard Wosien. Segundo ele, o intuito era trabalhar uma expressão corporal que pudesse transmitir organicamente um estado espiritual de alegria e amor.  Conseguiu. 

Todas as danças circulares são um convite para olharmos para nós mesmos e para o outro e podem ajudar na construção de caminhos para essa essência que Jung chamou de Self, pois, possibilitam a vivência simbólica e energética dos arquétipos e imagens simbólicas inconscientes, propiciando a integração desses conteúdos. 

Vamos dançar?

p.s: conteúdo baseado no trabalho de Conclusão de Pós-Graduação em Psicologia Analítica no Instituto Ânima, de autoria de Amanda Vigo - "A contribuição das danças circulares para o processo de individuação proposto por C. G. Jung."

sábado, 22 de abril de 2017

Uma carta vinda da Índia (A letter from India by Mariette Raina*)

Querida “Never Apart”,

Cá estou eu novamente na Índia. Quando o solo indiano penetra seu ser, torna-se algo como uma fragrância de perfume, misteriosamente irresistível,  que se quer perseguir. Cheguei em Delhi e imediatamente embarquei num trem em direção a Gwalior.

No mesmo dia da minha chegada, consegui ir até o forte – um dos importantes monumentos turísticos da região, estratégico para a ascensão e queda de inúmeros impérios desde que foi construído, no Século VIII. Conforme me aventurava entre os quartos do forte, um guia turístico gentilmente me ofereceu seus serviços e, logo depois, um jovem casal indiano nos fez companhia. Juntos revivemos a história do forte, nos comunicando um pouco em inglês e um pouco em híndi.  Entre perguntas e respostas,  vejo o lugar se transformar em um majestoso e vibrante salão de baile e concerto, depois num espaço para digníssimos e marajás, seguido pelos quartos das oito mulheres do rei e por fim o quarto de tortura de Moghul. Na minha imaginação posso ver as cores da atmosfera festiva, através das marcas dos espelhos que ainda estão nas paredes, e imagino o ambiente refletido na iluminação das lamparinas à óleo, coloridas nuances de uma noite de espetáculos.

De novo e mais uma vez, me dou conta do quão profundamente passado e presente se fundem – um sentimento que me é familiar quando estou em casa em Paris. A noite no hotel, me chama atenção um sofisticado casal inglês que exala o perfume de uma vida repleta de importantes experiências propositalmente cultivadas. Como na Índia, em Israel ou outras partes do mundo, você encontra pessoas com suas histórias individuais, cada um no seu microcosmo, fazendo parte de algo muito maior. É uma atmosfera que não tem nada a ver com idade.

Me sinto à vontade com meu guia e sinto que ele acha curioso meu entusiasmo por pedras antigas. Ele se oferece para me acompanhar pelo resto do dia. Os templos margeiam a estrada de terra, onde também jogam críquete,  os meninos da prestigiosa escola Gwalior.  As dependências dos professores da escola estão na rota para o Templo Sikh, onde poderemos comer.  Aqui, refeições são servidas durante todo o dia. Meu guia conhece todo mundo, o que me dá o privilégio de ser convidada para conhecer a cozinha. As refeições são preparadas em caldeirões gigantes – é maravilhoso! O chefe de cozinha é um Sikh com semblante generoso; suas sobrancelhas brilham com as pérolas de suor que gotejam sob seu turbante. Apesar de ser solteiro ele é casado com sua cozinha, dedicado a cuidar dela. Já seu irmão mais novo, de 23 anos, espera se casar nos próximos 2 anos. Ele me mostra fotos de sua prometida – um casamento arranjado pela família.

Já são 4 da tarde então me preparo para voltar para casa. Um jovem indiano, vestido com uma camisa xadrez e um chapéu fedora, pula na minha frente com sua moto. “Madame, quer uma carona? Quer que eu a deixe em algum lugar?” Sorrindo eu pergunto se a carona é de graça e monto atrás dele na moto, apoiando meus braços nos seus ombros. Em minutos e depois das perguntas normais sobre meu país e atividade, ele tinha me trazido para o centro da cidade e generosamente pagou para um rickshaw me levar ao hotel. Ainda que eu possa pagar pelo meu próprio transporte ele insiste em recusar meu reembolso, dizendo que eu sou uma convidada do país dele. Eu graciosamente agradeço e desejo boa sorte a ele. Quando chego no meu quarto, minha energia restante já era e por volta das 8 da noite caio num sono profundo.

As 3 da madrugada em ponto estou de pé, completamente acordada. A cidade está adormecida. Eu sento no meu tapete de yoga aproveitando a chance para uma sessão matinal. Exatamente às 5:30 da manhã o chefe de cozinha bate na minha porta. Ah sim, eu esqueci de mencionar o chef: ontem de manhã, logo depois do café da manhã, o chefe de cozinha gentilmente se ofereceu para me guiar por um tour nos jardins do hotel, ao fundo dos quais encontram-se três lindos templos. Nas paredes externas ainda tem traços da policromia remanescente dos antigos afrescos. Ele parece encantado com as coisas que chamam minha atenção e mais ainda com minhas tentativas de falar híndi, mas ele fica mesmo tocado com minha sinceridade para com a cultura indiana e indiretamente para com ele.  Os portais das paredes internas centrais estão fechados mas sou convidada a assistir ao “arti” na madrugada seguinte, quando o sacerdote honrará os ícones. Novamente as 5:30 da manhã em ponto o chefe de cozinha bate na minha porta e pegamos nosso caminho. O sacerdote já começou a cerimônia não-oficial. Dentro das paredes centrais tem um pequeno altar vermelho, decorado com inúmeras estatuetas das deusas – as nove mães e no centro uma escultura gigantesca de Hanuman, datada do século XVIII. Eu descubro as antigas pinturas que decoram as paredes e o teto,  dessa vez muito bem preservadas dentro das paredes eternamente fechadas onde a entrada de luz é escassa.  Fora dali o dia vai nascendo devagar.

São 8 da manhã e meu guia chega em sua moto. Nos preparamos para partir para um dia de visitas aos menos acessíveis e mais retirados templos. Quando subimos na moto o gerente do hotel oferece um capacete para o guia. Enquanto ele se vira para mim, eu espero que o guia vá me oferecer o capacete, mas estava errada. Ele apenas diz “está muito frio esta manhã” e prossegue cobrindo sua própria cabeça. Eu suponho que aqui na Índia, o capacete seja usado para manter a cabeça aquecida – o que até me parece adequado, considerando a hora gelada da manhã e a viagem ao ar livre na moto.  Felizmente o dia amanhece e o sol delicadamente aquece nossos corpos.

Atravessamos da cidade para a aldeia; a luz do sol vai deslizando pelo chão perseguindo as sombras e revelando o aroma especial do interior. Eu procuro guardar na memória tudo que vejo: na calçada, crianças uniformizadas indo para a escola de mãos dadas, um velho senhor enrolado em seu xale branco como uma estátua, um outro varrendo a terra vermelha acumulada e levantando ondas de poeira atrás de si, dois homens de braços dados, viajando num tuk tuk e um deles fazendo massagem na orelha do outro, uma mulher vestida num sari azul e enrolada num xale azul turquesa, um homem assoando o nariz nas mãos, vegetais no chão cobertos de pó, um rebanho de pequenas vacas atravessando a rua, crianças a correr descalças, as casas pintadas de azul celeste e rosa bombom, o esterco de vaca secando ao sol, mulheres trabalhando nos campos com seus saris coloridos que parecem flores em meio ao campo verde, anciões da aldeia com seus olhos brilhantes escondidos por trás de seus rostos magros e sua pele curtida de sol.

Lá está, distante, vejo Mitauli. Curiosamente, a maioria dos templos yoginis, sempre reconhecíveis pela estrutura circular e sem teto, estão construídos nas montanhas.  De longe Mitauli forma um círculo majestoso. Uma vez lá, percebo que algumas partes do templo foram reconstruídas e está muito bem preservado e, a julgar pelos vestígios de rituais e de incenso fresco, ainda recebe algumas discretas atividades.  Os templos yoginis estão relacionados a tradições secretas sobre as quais sabemos muito pouco. Percebo que nem os guias e nem os locais que se juntaram a nós sabem de fato qual era o propósito daquele templo. No máximo aprendi que esse templo é chamado “Templo Yogini 64” apesar de abrigar 71 nichos.  Um dos guias me explica que yoginis eram poderosas deusas e as pessoas vinha ao templo para receber a energia delas.

Passamos a tarde visitando três templos na região. É lindo; me sinto em casa. Às vezes eu lamento não ter prestado mais atenção nas aulas de arqueologia, mas na época eu não me interessava tanto pelas antiguidades e eu ainda não tinha me dado conta de que a história e o significado esotérico são dois lados da mesma moeda e o estudo de um leva, inevitavelmente, ao conhecimento do outro. Entre as visitas aos templos paramos para beber um chai, conversar com os locais e até aprender a dirigir a moto nas trilhas indianas. Meu guia é adorável e um bom professor: ele conversa comigo quase todo o tempo em híndi, mas devagar e pacientemente, o que me força a estar num estado de constante atenção ao mesmo tempo que absorvo um bocado de informação em um só dia. Lá pelas 3 da tarde decidimos voltar para casa. Está quente e como ele não quer o capacete nessa hora, eu o coloco. Mudança de planos no último minuto: sou convidada para comer com a família do irmão do meu guia e devolver a moto dele.

Quando chegamos, todos me olham com seus sorrisos tímidos e cheios de curiosidade como se um evento especial estivesse prestes a acontecer. As crianças se escondem e eu sou convidada a descansar em uma das camas enquanto a comida está sendo preparada.  Falamos em híndi, bebemos chá e o tempo voa. Com exceção do meu guia ninguém fala inglês, então ou ele traduz para mim ou simplesmente deixa que eu me vire com a sua família. A comida é servida: chapatis com guee e sabji. Então chega a vez da dona da casa comer também. Finalmente, quando todos comeram, a jovem me oferece óleo e um pente – eu imagino que seja a hora de nos arrumarmos. Ela me empresta um batom rosa-fúcsia que pode ficar lindo no tom da pele indiana mas que na minha pele clara fica um pouco exagerado.

Enquanto isso, os meninos estão fazendo seus cadernos para a escola. Por mais de uma hora eu os vejo costurar papelão cortado e folhas soltas com fitas vermelhas, criando um caderno caseiro de 80 páginas. A capa de papelão é devidamente protegida por um plástico da embalagem de fraldas de bebê ou jornais indianos. Confesso que estou sem palavras; cá estamos nós, bem longe da tradicional corrida anual às lojas de materiais escolares para comprar tudo para o primeiro dia de aula, tão típica no ocidente.

São 4:30 da tarde – hora de pegar a estrada. Dessa vez o irmão do meu guia vai dirigindo, o guia vai no banco de trás e eles me oferecem uma carona. Chegamos à estação de trem onde, por um milagre, consigo um ticket no último minuto. Amanhã eu parto para Varanasi para encontrar brevemente meu professor de sânscrito e alguns amigo. Uma visita rápida, por uma semana, antes de pegar meu caminho para Mysore.

Os cinco dias desde que cheguei parecem dois meses. Ontem encontrei um casal de ucranianos que me perguntou se acho difícil viajar sozinha. Eu respondi que viajar sozinha é igual viajar com amigos que você ainda não conhece. Cada encontro revela algo mágico e não planejado, especialmente se você está na Índia. Não tem mistério quando nos conhecemos.

Esse mês não há o que concluir. As palavras se encarregam disso, e por trás delas se esconde um vasto mundo que podemos sentir simplesmente fechando nossos olhos e nos deixando capturar por elas. Já está aqui, nesse exato momento, para além das limitações de tempo e espaço. As histórias são apenas um perfume que nos lembra da presença da flor, da beleza – arte e espiritualidade. Em última instância nenhum dos dois existem; há apenas a vida, momento a momento.

Estou pegando a estrada novamente e em algumas horas estarei no trem para Varanasi, em seguida Mysore, Mumbai e depois quem sabe... nos vemos em um mês.

Hari Om,
Mariette/Sara

  * Texto original escrito para a revista "Never Apart", do Canadá. Veja o Texto original com fotos maravilhosas! :)

Mariette é graduada em Antropologia pela Universidade de Montreal. Ensina yoga alinhada com a filosofia não dualista do Shivaismo Tântrico da Cachemira. Ela viaja regularmente para Índia para continuar sua pesquisa sobre as tradições esotéricas dos Tantras. 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Sobre a série 13 Reasons Why*

Eu não sou uma pessoa que assiste a séries. Não vi nenhuma, além de alguns poucos episódios de Friends (hahaha quem não?). Mas essa série 13 Reasons Why me pegou no final de semana de feriado, e assisti aos 13 episódios numa sequência non stop.

Inicialmente me pegou pela polêmica em torno da questão do suicídio, mas já do segundo minuto em diante me pegou por ela mesma. Eu gostei muito! E recomendo a todos os pais, professores, educadores e adultos em geral, minimamente interessados em olhar com cuidado, amor e generosidade para a adolescência no mundo de hoje. Na verdade para a adolescência de uma forma geral, hoje com cores mais berrantes, a meu ver, típicas do mundo em que vivemos.

Como falei acima, não sou qualificada para fazer uma análise crítica do ponto de vista técnico, artístico ou de produção e apesar de ter gostado muito da série em si, estou aqui para comentar sobre o conteúdo: o espinhoso tema adolescer, que na minha opinião é o tema central da série. E não necessariamente o suicídio em si.

Fiquei super impactada com a história, seus personagens, vivências e dramas. E tudo ficou reverberando em mim por dias... Talvez porque eu tenha um filho de 13 anos e o tema adolescer tem mexido muito comigo, evidentemente.

Só vivenciando essa fase com meu filho me dei conta de que adolescente = vergonha. Meu Deus, que judiação. Eles sofrem. Muito. Por tudo e qualquer coisa. São extremamente sensíveis e vulneráveis. Já não são nossos bebês que podem ser protegidos e assegurados de que tudo vai dar certo. Ainda não têm vivência de vida suficiente para saber que sim, tudo vai dar certo, de um jeito ou de outro. Estão à mercê de experiências, opiniões e acontecimentos para os quais não tem ainda repertório suficiente para lidar com. E já não contam com os pais para dar-lhes essa ajuda. Não querem contar. Natural.

E a escola, ah a escola... é um ambiente hostil e cada vez mais - generalizando é claro - liderado por pessoas que não se comprometem, não estão ali para de fato apoiá-los, representá-los, compreendê-los nas suas individualidades e diferenças. Uma escola que não tem espaço para o aprendizado das emoções, das relações, dos valores e bases que nos constituem. Até quando?

Ouvi vários comentários por aí sobre o fato de que nossas escolas eram iguais e que também sofremos muito bullying na adolescência. OK, minha adolescência não foi nada fácil, nada mesmo. Pode perguntar para minha mãe! :) Na minha visão, simplesmente porque adolescer é punk mesmo. Mas foi bem longe do que vi sendo retratado ali e que vi claramente acontecendo em escolas por onde meu filho já passou. Vejo muita diferença na escola em que hoje estamos.

Analisando sob o ponto de vista junguiano, onde para cada força radicalizada na consciência nasce uma força oposta de mesma intensidade na inconsciência; vejo no contexto contemporâneo do politicamente correto, da perfeição, da rigidez e padronização sem limites, o crescimento de maneira acentuada da agressividade, raiva, "sujeira" e caos. E sinto que de alguma maneira, são os adolescentes - talvez a fatia mais vulnerável da nossa sociedade - os que estão pagando o preço mais alto dessa história. 

Para mim, a série coloca em lentes de super aumento a seguinte questão: até quando vamos nos conformar em viver numa sociedade que não nos permite ser quem somos, com liberdade e verdade, colocando no mundo nossa melhor versão, e com isso, dando liberdade ao outro para fazer a mesma coisa?? Até quando vamos priorizar o ter, o parecer ser, do que o SER de fato??

O que eu sei é que é preciso muita coragem para reverter essa equação e sei também que quem tem a coragem de arriscar já está vivendo essa nova possibilidade de vida! Desejo de coração que mais gente possa enxergar essa faceta que a série mostrou para mim. E desejo também que os pais e as escolas reflitam junto com seus adolescentes esses temas que a série propõe! 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Revisando o Quem sou eu?

Quem sou eu? Quantas vezes nos fazemos essa pergunta? Eu, particularmente, o tempo todo! :)

Perguntar-se Quem sou eu? é um aspecto fundamental da escolha de viver conscientemente. Mais nos perguntamos, mais temos escolhas, mais saímos do agir automático.

Neste mês de Abril temos um momento muito especial, de clima astrológico, com 5 planetas retrógrados no céu, para revisar esse Quem sou eu? 

Planetas retrógrados são energias de revisão, reconexão interna, buscar dentro de si os valores, os quereres, os poderes, as estruturas necessárias, as ideias e sentimentos. Para então poder atualizar a nossa versão do Quem sou eu? e colocar esse EU no mundo, de novo, com nova roupagem.

Como temos uma natureza de resistência aos processos de mudança, muitos vivenciamos esses momentos de maior introspecção, de voltar-se para dentro e aquietar-se, com certa angústia. Como se sair um pouco do mundo lá fora, da energia solar, fosse amedrontador.

Mas se aprendermos a lidar com o fato de que inevitavelmente os ciclos da vida se sucedem e que sempre há o tempo de colher e de plantar; e que é no escuro que se germinam as sementes, podemos viver esse tempo com mais quietude e beleza. Tendo a certeza de que, quando vier o tempo da semente germinar, ela firme e forte, colocar-se-á de novo para fora, prometendo novos e doces frutos. 


segunda-feira, 20 de março de 2017

Ciclos

Autoconhecimento para mim é também conhecer-me como parte de um lugar, uma espécie, um planeta, um sistema solar, um universo... e conhecer o funcionamento desse todo maior que me rodeia sempre muito me interessou. 

Hoje é o início de um novo ciclo astrológico e astronômico! Quando o Sol entra em Áries, temos o ano novo astrológico e uma nova volta pelos 12 signos do zodíaco, 12 constelações, se inicia. E quando o Sol está alinhado com a linha do Equador temos o Equinócio, para nós de Outono. Ciclos.

2 Equinócios por ano - dias nos quais temos o dia e a noite com exata mesma duração, o equilíbrio perfeito entre luz e sombra em cada um dos hemisférios do planeta. O da Primavera, trazendo dias mais longos a cada dia e o do Outono, quando então as noites ficam mais longas, um ciclo depois do outro...

O Outono na natureza é um ciclo de perda de folhas, cascas, pele, comportamentos e situações para todas as vidas do planeta. Conforme as noites vão ficando mais longas e o clima mais frio a tendência é de um maior recolhimento, simbólico e literal. Tempo de produzir mais dentro do que fora. E de alguma maneira ir gestando as novas sementes que brotarão quando a primavera chegar.

Gosto de sentir os ritmos da natureza, da vida. Gosto de pensar que podemos sim, cada dia mais um pouquinho, sair dos tempos marcados pelo relógio e viver no tempo marcado pela natureza, o ir e vir do Sol, da vida... Gosto de sentir os ciclos da vida e me perceber neles. São muitos e vários ciclos ao mesmo tempo, dentro e fora e entrelaçados. Ciclos dentre de ciclos, como uma mandala. E quando compreendemos mais as energias de cada ciclo, me parece que fluímos mais e melhor, sem tanta energia gasta no controle da vida.

Outro exemplo, os ciclos psíquicos bem marcados no desenvolvimento humano, de 7 em 7 anos, onde temos a cada ciclo um “pedido” diferente da psique para nos desenvolvermos como ser, porque afinal, tudo que tem vida nasce e  cresce o tempo todo!! Mais marcado em uns que outros, mais rápidos ou mais lentos, mais ou menos profundamente, os ciclos vão se sucedendo a cada tempo para cada um de nós.

- De 0 aos 7 anos a hora de formar o nosso corpo, carne, ossos, órgãos, nossa estrutura de Ego, de personalidade. O ciclo entre a total proteção do útero e o movimento no mundo
- De 7 aos 14 anos a hora de interagir com o mundo e aprender a lidar com o universo dos sentidos, dos sentimentos. O Ciclo de transição entre ser uma criança e começar a me perceber um ser desejante, com cada dia mais escolhas de vida, e mais importantes escolhas…
- De 14 aos 21 anos a hora de pertencer definitivamente ao mundo, estabelecer relações. O Ciclo que fecha a estrutura psíquica, me preparando para de fato não mais precisar depender emocionalmente de outro ser
- De 21 aos 28 anos a hora de me colocar no mundo como um ser único, desenvolver meu potencial. O Ciclo que pede que eu me liberte do ser que sou como reflexo de tudo e de todos, sobretudo meus pais, para me descobrir na individualidade, seguir meu coração
- De 28 aos 35 anos a hora de amadurecer, construir, definitivamente me expressar no mundo através das minhas conquistas. O Ciclo do amadurecimento de aprender a ser e compartilhar, tudo ao mesmo tempo agora
- De 35 aos 42 anos a hora de enxergar além de mim e de minhas relações íntimas, ambiente próximo, minhas posses… O Ciclo das grandes questões sobre a vida, sobre a transcendência
- De 42 aos 49 anos a alteridade. Eu e o outro, Eu e o mundo, Eu e o Divino. O Ciclo da entrega, da devoção, da força de propósito

Como você sente esses ciclos para você?


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Sobre os processos de transformação

Ontem no encontro mensal do Círculo de Mulheres conversamos sobre os nossos processos de transformação: como acontecem, o que causam, as dores e delícias... e foi tão lindo e inspirador que resolvi compartilhar um pouco aqui....

Transformar-se é morrer para aquela que eu fui para renascer outra, diferente, mais alinhada com aquela que desejo ser e, portanto, mais feliz! :)

Quando vem a vontade de mudar, ser diferente, precisamos deixar situações, hábitos, pessoas talvez, e outras coisinhas para trás. Mas esse processo na maioria das vezes não é nada fácil. 

Primeiro, com certeza vamos ter que enfrentar o processo de "rejeição" das pessoas ao nosso redor, que logo nos carimbam e dizem "nossa, mas como você não vai beber hoje!? Logo você?" ou então "ai ai ai, você sempre foi tão legal, agora está uma chata, fala não pra tudo!" ou ainda "você sempre gostou disso porque agora não gosta mais?".... e por ai vai...

Essa "rejeição" é uma forma das pessoas tentarem fazer com que você fique onde estava pois esse é um terreno conhecido para elas e a dinâmica nos círculos de amigos, família, trabalho.... é como um jogo de xadrez, uma peça muda, tudo muda no jogo... e é disso que as pessoas têm medo - das mudanças - e daí resistem à transformação de qualquer pessoa ao redor.

Mas se você resistir bravamente, elas recuam, desistem e te aceitam do novo jeito. Aliás, aceitam não, gostam até mais de você na verdade. Pode acreditar! Todas no Círculo ontem viveram a mesma experiência nos seus processos de transformação. E as pessoas que de fato rejeitarem a mudança, e saírem da sua vida por isso, você vai perceber que nem fazem falta, na verdade... :)

Outra questão importante nesse tal processo de transformação é o apego, fruto do medo e da necessidade de segurança que carregamos, e que torna esse processo mais dolorido, extenso e penoso do que seria necessário. 

Eu sempre digo 'o medo não é um bom companheiro'. Então, sempre que se pegar sentindo medo, reflita a fundo, encare o medo detalhadamente na sua cabeça, percorra com todos os detalhes se perguntando qual é o medo? E depois da primeira resposta, se pergunte de novo qual é o medo? E depois da segunda e da terceira... Nesse processo você vai descortinando verdades que aparecem prontas na sua cabeça, crenças, falas da cultura, da família, da história vivida até aqui... e quase sempre vai perceber que esse medo não é seu de fato, não é real... é apenas algo instalado dentro de você!

Auto-observação e coragem. É só o que precisa. 

E nesse processo de se transformar vamos tomando gosto pela "brincadeira" e a vida fica muito mais gostosa, significativa, intensa, verdadeira... Não custa nos lembrarmos que a lagarta não sabe que vai virar uma borboleta; para ela, o processo de transformação é a morte! Mas que sem graça seria se pelo medo da dor e da intensidade das nossas 'pequenas mortes' deixássemos de nos transformar na melhor versão 'borboleta' de nós mesmas, não?


sábado, 7 de janeiro de 2017

Sobre o caderno de sonhos

Uma das primeiras coisas que digo para alguém que começa um processo terapêutico comigo é: tenha um caderno de sonhos. Compre um novo caderno, desenhe uma capa linda para ele se quiser, mas tenha um, novo, com esse objetivo: ser o seu caderno de sonhos. Deixe-o na cabeceira da sua cama e anote nele os seus sonhos. Quais? Aqueles que se sonha dormindo e aqueles que se sonha acordado.

"Ah mas eu não sonho!", muitas vezes é a resposta que eu ouço. Sim, você sonha todas as noites. Pode ser que você não se lembre, mas você sonha. E à medida que estimular o seu cérebro, tendo seu caderno, você vai começar a lembrar mais e mais. O sonho, para Jung, é uma mensagem do nosso eu mais verdadeiro - o SELF - para o nosso eu consciente - o EGO. 

Quando as escolhas que fazemos com nosso Ego, no nosso dia-a-dia, estão mais alinhadas com os desígnios de nossa Alma - nosso eu mais verdadeiro e profundo - mais em equilíbrio e saudáveis estamos, nos ensinou Dr. Bach.

Ou seja, nossos sonhos são a chave para uma vida mais saudável, mais inteira, mais alinhada com o que de fato nossa Alma veio aqui realizar. Ora, se estamos aqui para aprender as lições que escolhemos, nada melhor que nos utilizarmos de todas as estratégias ao nosso alcance para vivenciá-las com consciência, não?

No início pode ser que você não se lembre de nenhum sonho mesmo, mas comece anotando como se sente ao acordar, por exemplo. Aos poucos, mais e mais sinais virão. O caderno é um grande apoio ao processo de autoconhecimento porque nele podemos anotar nossas ideias, reflexões, sentimentos, pensamentos, insights... e assim nos conhecermos melhor a cada dia...

Eu tenho cadernos desde os 15 ou 16 anos mais ou menos... Tenho uma caixa grande com todos eles guardados. Alguns duraram por mais de 1 ano, outros menos de 1 mês, por exemplo, de tão intenso que foi o período de observação e reflexão sobre mim mesma. Virou, mexeu, eu pego algum caderno para ler, buscar alguma informação a meu respeito, relembrar algum sonho recorrente, por exemplo. Nossa, eu adoro! E como faz toda diferença no meu processo de tomar consciência de mim!

Por isso eu recomendo demais. Tenha o seu caderno de sonhos e reflexões! Esse é o meu novo, que estou começando agora. Comprei aqui em Montreal porque o que eu trouxe já acabou... :)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Férias para dentro de mim

Nesse final de ano, aproveitei o espaço enorme de tempo que as férias do meu filho com o pai deixam na minha vida, cotidianamente preenchida com as tarefas da vida de mãe que trabalha e cria filho sozinha na lida diária, para tirar férias para dentro de mim.

Eu já tinha aproveitado esses momentos, outras vezes, para fazer retiros de meditação e tal, mas esse está sendo muito diferente. Porque nos retiros a gente fica literalmente retirada das atividades cotidianas da vida, apenas seguindo a programação, tendo comida pronta e horários a serem cumpridos. Sempre foram muito bons pra mim também. Mas dessa vez a experiência está sendo tão forte e linda, que me deu vontade de dividir um pouquinho com vocês.

Nessas férias eu vim para Montreal, Canadá, por 18 dias, para me aprofundar na prática de tantra yoga da caxemira, estudar, estar comigo mesma. Aluguei um airbnb e cá estou, num frrrrrriiiiooooo, muita neve, vivendo dias muito, muito intensos, delicados e deliciosos, de auto-observação e experimentação de mim mesma.

Estou vivendo no tempo kairós*: não tenho compromisso nenhum com hora marcada com antecedência, de maneira que eu seja obrigada a cumprir, quer esteja com vontade ou não. Acordo quando os olhos abrem - teve dia que isso aconteceu as 4:30 da manhã e outros as 7:30 -, como quando tenho fome, como o que me dá vontade de cozinhar ou comprar no mercado delicioso que tem aqui ao lado, presto muita atenção no que como, quanto como, como me sinto depois.... se me dá vontade saio de casa, se não dá, passo o dia todo sem colocar os pés dentro da bota - isso significa fora de casa! :)

Durmo quando tenho sono, leio quando quero ler, pratico yoga e medito quando dá vontade, tenho tido tempo para escrever muitas reflexões no meu caderno, já quase terminei com o que eu iniciei dia 24/12, vindo para cá! ;). Leio na cama ao acordar ou antes de dormir, o quanto dá vontade, passo quanto tempo me der vontade olhando pela janela e me deliciando com a delicadeza da neve caindo, tantas vezes rindo sozinha ou deixando as lágrimas rolarem sem dó pela sensibilidade que me causa uma cena vista da janela ou um pensamento ou sentimento que me invadem de repente... não tenho pressa para absolutamente nada...

Se minha bota "morre" no meio do caminho, ok, chego em casa na ponta dos pés e no dia seguinte vou de tênis comprar uma nova - até fico feliz com o incidente, porque não gostava muito da bota que eu tinha, mas como eu já tinha, não ia comprar outra só por comprar... mas como uma parte da sola descolou... pronto, tinha que escolher uma nova e linda bota! :) Se uma dorzinha chatinha no joelho esquerdo - machucado numa aula de dança há quase 2 anos - insiste em voltar pela prática constante da yoga, simplesmente vou à loja natureba que fica a dois quarteirões e lá encontro a mesma pomada homeopática que uso no Brasil... homeopatia alemã... pronto, joelho cuidado...

E assim tem sido com absolutamente tudo, qualquer situação, fato, sentimento ou pensamento... Ter tempo para ampliar a consciência sobre mim mesma, minha vontade, meus sentimentos, sensações, impulsos, virtudes e pequenezes, tem me deixado um sentimento de gratidão tão tamanho, que mal consigo expressar.

Como a vida pode ser tão doce, tão bela, tão deliciosa assim, sem tempo, sem do's ou dont's, apenas na observação de si mesmo para encontrar a voz que fala no mais profundo... a voz da vontade... a motivação da alma... 

Sinto muito que no mundo que vivemos hoje em dia, não conseguimos seguir o ritmo da vida, assim, sendo vivida pela força da vontade que dá. E antes que pensem que não deu vontade de trabalhar, já digo que tenho trabalhado também e bastante até - algumas sessões estão acontecendo, num ritmo menor do que de todas as outras semanas do ano, mas estão; estou escrevendo muito, planejando 2017, preparando aulas, estudando muito (que no meu caso não deixa de ser trabalho) etc... Mas tudo no tempo da minha vontade. E com prazer, sempre! Porque afinal, só fiz porque deu vontade! :)

Desejo de coração que a partir daqui eu viva a minha vida mais e mais no tempo kairós. No tempo da vontade. Da consciência. Da harmonia. Da gratidão.

* Os gregos antigos tinhas duas palavras para o tempo: Chronos e Kairós. Enquanto o primeiro refere-se ao tempo cronológico ou sequencial (o tempo que se mede, de natureza quantitativa), Kairós possui natureza qualitativa, o momento indeterminado no tempo em que algo especial acontece: a experiência do momento oportuno



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